quarta-feira, 26 de setembro de 2007

contrário a felicidade

Em defesa da Ciência

(Resposta a Ciência e Bullshit.)

120 A prova do prazer - A opinião agradável é aceita como verdadeira: esta é a prova do prazer ( ou, como diz a igreja, a prova da força) da qual todas as religiões se orgulham, quando deveriam dela se envergonhar. Se a fé não trouxesse felicidade, nela não se acreditaria: portanto, quão pouco valor ela deve ter!

A forma como a sociedade está eliminando criacionismo, por mais que digam o contrário os defensores dos grandes argumentos racionais, não é através de argumentações, e digladiações intelectuais, com provas concretas. Ele está sendo eliminado pelo conhecimento da história, pela compreensão de como surgiu, e de para que desejos satisfazer surgiu. Aquele que compreende porque inventaram a Deus e porque esse meme foi mantido no intelecto coletivo, as emoções que ele modifica, e as promessas que a palavra carrega tem muito mais chance de se desencantar com Deus que aquele que lê argumentos, por mais precisos que sejam, contra a existência dele.

Deus existe e se mantém pela prova do prazer, e a constante revelação desse fato desperta em nossas emoções o gatilho que inicia o desencanto.

Existem muitos níveis de sofisticação para a prova do prazer, ela pode ocorrer desde quando rejeitamos a morte de um ente querido, dizendo, “não, não é verdade!” até os mais sofisticados e complexos argumentos a respeito de como o mundo é mais divino, soberbo, profundo, teleológico, complexo, espiritual, metafísico do que realmente é. Em uma palavra, Hegel.

A diferença intelectual entre o pós moderno e o cristão medieval é apenas o grau de sofisticação no qual seu intelecto ainda é capaz de tolerar a prova do prazer, para o intelectual, há muito menos escopo de prazer disponível, pois há muito mais, para ele, que é patentemente contraditório, somente é capaz de “acessar o divino” ou seja, de enganar sua própria racionalidade, quando trata de matérias de tal maneira complexas que sua cognição é incapaz de alçar tão alto vôo, e o mar de palavras finalmente tem o direito de se tornar poesia e emoção incompreensível, prazer, aceitação.

Quanto menor a previsibilidade de algo, seja um texto uma música ou um desenho, mais alto nas hierarquias corticais a informação há de subir antes de descer de volta, o apogeu, a epifania do neo-cortex são aquelas passagens que atingem o hipocampo, ativam os neurotransmissores e causam uma sensação de prazer que nos dá a sensação “Que genial isso!” (On Intelligence – Jeff Hawkings)

What is wanted is not the will to believe, but the wish to find out, which is the exact opposite. — Bertrand Russell

O thor é movido pela will to believe, e assim como muitos pós modernos, caiu no conto que assere que a ciência é só mais um campo de saber, como são as religiões e ou filosofias ao longo do tempo. Não é, e não o é porque ela não está baseada, como todas as demais formas de conhecimento, nessa Will to believe. E o wish to find out é sua única palavra de ordem. Isso a faz dinâmica. Não no sentido Hegeliano no qual o Espírito opera por leis dialéticas determinadas, e segue um curso que depende totalmente da fé do espectador. Mas sim pelo fato de que ela está disposta a mudar. O conjunto de idéias que a compõe hoje não há de ser o mesmo que amanhã, ela não é totemizada como Freud. Isso garante sua atualidade, e sua correspondência com o que é atual. Sua gradual aproximação de uma boa descrição do mundo.

Mas será a ciência capaz de descrever uma cadeira?

Do ponto de vista no qual uma cadeira tem um algo em si, ou uma essência, evidente que não, mas esse algo em si é somente uma inferência que fazemos a respeito da cadeira.

A inacessibilitade da cadeira só existe para quem a considera como tendo uma substância na qual suas propriedades se manifestam. Mas nada na nossa experiência indica isso. Temos diferentes experiências de uma cadeira, e essas experiências dizem respeito a propriedades que dizemos ser Da cadeira. Mas isso é apenas um preconceito linguístico. A cadeira é o conjunto de propriedades que atribuímos a ela. Não há razão de se postular uma substância metafísica na qual essas propriedades se manifestam ou realizam, uma coisa em si.

O que a ciência nos dá então é uma descrição adequada (e no tempo progressivamente mais adequada) de como as propriedades que constituem uma cadeira, no seu aspecto inter-subjetivo operam (ou seja, o que há de comum entre uma cadeira para mim e uma para você).

Não há a necessidade de fazer, como critica Descartes “de ofício saber mais do que se sabe”, coisa típica das ciências místicas como a astrologia.

É por isso que ela funciona, e é tecnicamente útil, o que confere a utilidade pragmática da ciência é a realidade do objeto que ela representa. A forma verdadeira como descreve o mundo é o que permite que o manipulemos. E só algum intelecto com muito escopo para a prova do prazer é capaz de negar que lida melhor com algo aquilo que melhor o compreende.

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